Politicando
O BOLE-BOLE num recorte temporal político - 1994 a 2018: grupo partido, opositor fortalecido.
Por Joabe Bernardo
Em um breve recorte das "arenas" de disputa política, a terrinha que leva o nome de réptil, Lagarto, mostra quem mais se rastejou de 1994 a 2018 nas eleições federais, estaduais e municipal.
A cultural divisão de grupos SARAMANDAIA e BOLE-BOLE define lados e cristaliza resquícios do Período Imperial em que havia disputas entre republicanos e velhos políticos, que posteriormente foram chamados de "PEBAS" e "CABAÚS". Liberais e conservadores que atualmente se revestem de novas classificações que camuflam os verdadeiros interesses da política de direita e de esquerda.
Nas "arenas de disputa", a união tem garantido poder político e a desunião tem nutrido a espetacularização por meio da troca de insultos e acusações pessoais típicas de torcidas movidas pelo emocional. Grupo partido, opositor fortalecido e a história repetida.
A história política de Lagarto analisada legenda e firma qualquer previsão engendrada por "cientistas políticos" formados nas calçadas, vielas e bancos de praça da cidade. Se analisar, dificilmente errará as projeções.
Os Ribeiros emblemam fracassos políticos que emergem de rachas, traições e brigas familiares. O saudoso e emblemático líder do BOLE-BOLE reconhece essa característica indissociável do seu grupo em um entrevista concedida ao SBT: disse Ribeirinho: "Nós somos um bobo porque 'não devia' ter nos encrencado, devia ter se unido mais por Lagarto. Nós perdemos tempo".[1] E de fato ainda perdem muito tempo. O espírito conflituoso marca a trajetória do grupo BOLE-BOLE.
Na década de 60, Ribeirinho inaugurou "a sina dos rompimentos políticos" quando rachou com Dionísio Machado. Na década de 60, envolveu-se em um campanha municipal agitada com processos no TRE impetrado contra o opositor. O opositor eleito falece antes da posse. Assim, ocorreu a nova eleição que o consagrou prefeito de Lagarto em 1963. Tudo isso depois de ter exercido o cargo de vereador, 1954-1958, e de deputado estadual, 1959-1962. Em 1966 fora eleito mais uma vez deputado estadual, mas em 1969 teve seu mandato cassado pelo regime militar. Só em 2015 que teve o cargo devolvido simbolicamente.
Toda preguiça intelectual e desorganização política do grupo podem ser analisadas nesse recorte temporal das eleições de 1994 a 2018:
ELEIÇÕES FEDERAIS E ESTADUAIS
1994: BOLE-BOLE elege um FEDERAL
O BOLE-BOLE era comandado pacificamente pelos irmãos CABO ZÉ e RIBEIRINHO. Momento primeiro em que o BOLE-BOLE teve DEPUTADO ESTUADUAL E FEDERAL. Na ocasião, o Grupo SARAMANDAIA elegeu um federal e um estadual também.
SARAMANDAIA
Jerônimo - eleito DEPUTADO FEDERAL com 38.974 votos.
Artur - eleito DEPUTADO ESTADUAL com 10.528 votos.
BOLE-BOLE
Adelson Ribeiro - eleito DEPUTADO FEDERAL com 27.904 votos.
Ribeirinho - eleito DEPUTADO ESTADUAL com 9.016 votos.
ELEIÇÃO MUNICIPAL
1996 - Valmir surge na POLÍTICA
Os RIBEIROS lançaram Valmir em 1996, tendo como vice, Luiza Ribeiro, porém sem sucesso:
PREFEITO
Jerônimo Reis - eleito com 20.175 votos.
Valmir Monteiro - derrotado com 18.260 votos.
ELEIÇÕES FEDERAIS E ESTADUAIS
1998 - BOLE-BOLE dividido só elege Valmir.
Aproveitando o sentimento de compaixão do emotivo eleitorado lagartense, Valmir se elege deputado estadual em 1998. Motivo: empresário quebrado que saiu perdedor da eleição municipal de 96.
BOLE-BOLE
Valmir - 6.504 votos em Lagarto/SE. Eleito DEPUTADO ESTADUAL por média com 8,494 votos.
SARAMANDAIA
Artur Reis - 10.500 votos em Lagarto/SE. Eleito DEPUTADO ESTADUAL com 12,019 votos.
Sérgio Reis - 15.386 votos em Lagarto/SE. Eleito DEPUTADO FEDERAL com 47,091 votos.
ELEIÇÃO MUNICIPAL
2000
PREFEITO
Jerônimo Reis - eleito com 20.553 votos.
Cabo Zé - derrotado com 17.338 votos.
Padre Almeida - derrotado com 2.622 votos.
ELEIÇÕES FEDERAIS E ESTADUAIS
2002: BOLE-BOLE dividido
OS IRMÃOS RIBEIROS estavam UNIDOS na disputa, porém desarticulado. Mas Valmir ocupa a vaga de DEPUTADO ESTADUAL eleito.
BOLE-BOLE
Valmir - 6.411 votos em Lagarto/SE. Eleito com 15.281 votos.
Cabo Zé - 8.024 em Lagarto/SE.
SEM FEDERAL
SARAMANDAIA
Goretti - 12.274 em Lagarto/SE. Não eleita.
SEM FEDERAL
ELEIÇÃO MUNICIPAL
2004 - BOLE-BOLE dividido
BOLE-BOLE dividido - Eleições para prefeito
Zezé Rocha - Eleito com 22.961 votos.
Cabo Zé (vice Ribeirinho) - derrotado com 13.516 votos.
Valmir (vice Aurea) - derrotado com 8.269 votos.
Fato curioso - A nora de Ribeirinho votou contra o SOGRO e divide a família. Sendo que Cabo Zé tinha o maior potencial no momento.
ELEIÇÕES FEDERAIS E ESTADUAIS
2006 -
BOLE-BOLE dividido
BOLE-BOLE
Valmir - 9.466 votos
Sem representação para federal
SARAMANDAIA
Goretti Reis - 12.217 votos - Assume suplência.
Jerônimo Reis - eleito deputado federal com 19.684 votos.
ELEIÇÃO MUNICIPAL
2008
BOLE-BOLE mais organizado - Porém, as irmãs "RIBEIRO", que nunca mostraram potencial de voto, não votam na chapa que tem o primo Júnior como vice-prefeito. Luiza sai candidata a prefeita.
Valmir - Eleito com apoio de Cabo Zé com 25.132 votos.
Lila Fraga - Votos não computados.
Luiza Ribeiro - derrotada com 732 votos.
Valmir Monteiro, antes de conquistar a prefeitura de Lagarto/SE 2008, sofreu duas derrotas nas candidaturas a prefeito.
ELEIÇÕES FEDERAIS E ESTADUAIS
2010
SARAMANDAIA
Goretti Reis - 13.935 votos em Lagarto/SE. Eleita DEPUTADA ESTADUAL com 23.157 votos.
Fábio Reis - 14.955 votos em Lagarto/SE. Eleito DEPUTADO FEDERAL com 56.208 votos.
BOLE-BOLE
Gustinho Ribeiro - 8.101 votos em Lagarto/SE. Eleito DEPUTADO ESTADUAL com 15.654 votos.
Sem representante para federal
ELEIÇÃO MUNICIPAL
2012
SARAMANDAIA
Elege Lila prefeito de Lagarto - 29.581 votos.
Valmir Monteiro sofre a terceira derrota na disputa da prefeitura - 24.575 votos.
Marcélio do PSOL - 514 votos.
Edla Ribeiro - 213 votos.
ELEIÇÕES FEDERAIS E ESTADUAIS
2014
LAGARTO ELEGE TRÊS DEPUTADOS ESTADUAIS
BOLE-BOLE dividido
Valmir aproveita a crise política na gestão do SARAMANDAIA e a divisão do BOLE-BOLE e se elege DEPUTADO ESTADUAL pela 4ª vez.
Gustinho Ribeiro - eleito DEPUTADO ESTADUAL com 34.863 votos.
Goretti Reis - eleita DEPUTADA ESTADUAL com 26.866 votos.
Valmir Monteiro - ELEITO DEPUTADA ESTADUAL com 26.032 votos.
Entendendo o cenário:
Bole-Bole dividido, mas uma inteligente articulação de Gustinho consegue votos no interior do estado que asseguram uma cadeira na ALESE.
Valmir Monteiro - 18.793 votos em Lagarto/SE. O momento favoreceu Valmir porque o mesmo recebeu votos de protesto oriundos do contexto crítico da gestão SARAMANDAIA.
Gustinho obteve em Lagarto/SE 5.633 votos no contexto.
Goretti Reis continuou com seus 12.184 votos em Lagarto/SE. Mesmo diante da crise administrativa do grupo SARAMANDAIA, o trabalho sério e comprometido prova que sustentar base é importante para alcançar vitória.
FEDERAL
Único federal lagartense - FÁBIO REIS - em Lagarto/SE 16.877. Eleito com 80.895 votos.
A votação testifica o enfraquecimento do grupo SARAMANDAIA no município por conta de uma não liderança acentuada e enfraquecimento das bases. Apesar de tudo, permaneceram unidos.
ELEIÇÃO MUNICIPAL
2016
Diante da crise política que assolou o país, a gestão Lila Fraga sofreu respingos fortíssimos. Além do isolamento da Gestão por parte de membros do grupo SARAMANDAIA. Valmir retorna a prefeitura não como um líder nato, mas como o auxílio do voto de protesto: candidato escolhido como forma de manifestar indignação com a política atual.
VALMIR MONTEIRO - Eleito com 32.966 votos.
JERÕNIMO REIS - 21.120 votos.
ELEIÇÕES FEDERAIS E ESTADUAIS
BOLE-BOLE unido, inicialmente, confere uma boa base eleitoral em Lagarto e elege um ESTADUAL e um FEDERAL.
2018
BOLE-BOLE
Ibrain - em Lagarto/SE, 15.639 votos. Eleito DEPUTADO ESTADUAL com 32.059 votos.
Gustinho Ribeiro - em Lagarto/SE, 11.294 votos. Eleito DEPUTADO FEDERAL com 64.132 votos.
SARAMANDAIA
Goretti Reis - em Lagarto/SE, 12.173 votos. Eleita DEPUTADA ESTADUAL com 21.306 votos.
Fábio Reis - em Lagarto/SE, 16.997 votos. Eleito DEPUTADO FEDERAL com 64.879 votos.
O momento registra um "racha" invisível no SARAMANDAIA acerca da vaga de DEPUTADO ESTADUAL. A deputada Goretti Reis conquista uma vaga por meio de uma campanha limpa, porém muito conturbada nos bastidores. Apesar dos pesares, o grupo se reorganiza e plasma duas vagas. Registra-se uma queda de votos a nível de estado. Observa-se um enfraquecimento das bases e uma liderança desalinhanda.
Considerações finais
A falência da liderança de um grupo é causada por conta dos diferentes interesses que apontam caminhos que não levam ao poder político consolidado através de um carisma aprovado pelo eleitorado. Quem não lidera os próprios sentimentos, desejos e emoções está fadado ao abismo do esquecimento e da desaprovação popular.
Esse não gerenciamento emocional dos líderes absorvido pela vaidade e prepotência provocou derrotas amargas de 1994 até 2018 no grupo BOLE-BOLE. Tratando-se de eleições municipais, o GRUPO SARAMANDAIA, sempre revestido de união, da 6 campanhas municipais, acumula 4 VITÓRIAS. Já o BOLE-BOLE, marcado pelas crises de liderança, só alcançou 2 VITÓRIAS nas 6 campanhas (de 1996 a 2016).
O grupo SARAMANDAIA tem se mostrado unido, mas tem se tornado enfraquecido pela não conservação das bases político-partidárias. Com a frágil saúde de Artur Reis e o esfriamento político de Zezé e Jerônimo Reis, o grupo apresentou uma liderança dispersa. Basta observar a solidão da gestão 2013/2016 e o não empenho na conquista da vaga de estadual em algumas campanhas em função de projetos não consolidados.
Nesse recorte eleitoral de 1994 a 2018, em 22 anos, que marca 7 campanhas, o BOLE-BOLE conquistou 2 VITÓRIAS para FEDERAL. O grupo SARAMANDAIA emplaca 5 VITÓRIAS pra FEDERAL. Já para a vaga de ESTADUAL, O BOLE-BOLE, das 7 campanhas, tem 8 VITÓRIAS na ALESE (em 2014, Valmir e Gustinho se elegeram). O SARAMANDAIA acumula 5 VITÓRIAS na ALESE.
Assim sendo, conclui-se que o BOLE-BOLE tem uma liderança de grupo desajustada que emerge de um passado alimentado por vozes dos LIBERAIS, os PEBAS, e dos CONSERVADORES, os CABAÚS. Mostrando que desde a transição da monarquia para a república, nada mudou nessa arena de disputa pelo poder em Lagarto/SE. Assim explanou o Conselheiro Aires no romance de Machado de Assis, capítulo 64: "[...] muda de roupa sem trocar de pele [...]". Assim o grupo BOLE-BOLE conserva a dificuldade de união de grupo. O tempo passou mudaram a camisa, ou seja, novos personagens, mas a pele, a essência que brota do DNA, é a mesma.
REFERÊNCIA
RESULTADO DAS ELEIÇÕES: www.infonet.com.br
ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. In: Obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1985, vol. I.
A IMPRENSA OFICIAL SERGIPANA E O PROCESSO ELEITORAL DE 1896 https://www.ufjf.br/facesdeclio/files/2014/09/6.Artigo-D4-Bruna.pdf
A POLÍTICA ATRAVÉS DA FREQUÊNCIA: INFLUÊNCIA E PARTICIPAÇÃO DAS EMISSORAS DE RÁDIO NO COTIDIANO DA POLÍTICA LOCALhttps://www3.ufrb.edu.br/sppgcs2015/images/pamela_1.pdf
[1] https://www.youtube.com/watch?v=aeHNCi5Dozw

